Armando Almeida: “Se as pessoas não estiverem no centro, a Enfermagem perde o seu sentido”

Terça-feira, Setembro 8, 2026 - 11:31

Armando Almeida é coordenador da Licenciatura em Enfermagem da Escola de Enfermagem (Porto) da Universidade Católica Portuguesa. Chegou à Enfermagem quase por acaso, mas foi durante o seu primeiro estágio que descobriu o sentido da profissão. Nesta entrevista, fala sobre o que mais o fascina na Enfermagem e sobre a forma como procura transmitir esse propósito aos estudantes. Reflete ainda sobre o papel dos enfermeiros na saúde das pessoas, a importância da prevenção e aquilo que distingue a formação na Católica, defendendo que “se as pessoas não estiverem no centro, a Enfermagem perde o seu sentido”.

 

Como é que a Enfermagem surge na sua vida?

Foi um percurso curioso, porque acabou por acontecer sem estar propriamente nos meus planos. Em miúdo queria ser arquiteto, mas depois descobri que não gostava nada de Geometria Descritiva. Mais tarde, na área das Ciências, entusiasmei-me muito com a Biologia e tive um professor que me marcou imenso. A partir desse momento, fiquei convicto de que queria seguir essa área, fascinado pelo grupo de proteção ambiental do qual fazia parte e pela ideia de explorar a Amazónia ou mesmo o Gerês. Quando me inscrevi no Ensino Superior, tinha de colocar outras opções para além de Biologia e coloquei Enfermagem, sem ter propriamente consciência do que estava a fazer, porque estava convicto de que ia entrar em Biologia. Mas não entrei por uma décima e fui parar a Enfermagem. Não fazia ideia do que estava ali a fazer. Começou então a minha descoberta e tive um primeiro ano muito difícil. Cheguei mesmo a ponderar desistir do curso.

Até que…

Até que tudo mudou quando, no segundo ano do curso, tive o meu primeiro estágio de observação. Nesse estágio, vivi um momento particularmente transformador na minha vida. Um certo dia, acompanhei duas enfermeiras que estavam a prestar cuidados a uma senhora deitada numa cama. Cheguei a pensar que a senhora estava em coma, porque não abriu os olhos durante todo o tempo em que as enfermeiras lhe prestaram cuidados, embora não se dirigissem diretamente a ela. Depois, pediram-me para ficar no quarto com a senhora e eu fiquei. A certa altura, tive a intuição de lhe passar a mão pelo cabelo e de lhe fazer uma festa. Apanhei um enorme susto, porque a senhora abriu os olhos e agradeceu-me profundamente aquele gesto. Percebi depois que aquele reconhecimento se deveu ao facto de eu a ter considerado como pessoa. As outras enfermeiras tinham-lhe prestado os cuidados necessários, mas, de facto, nunca houve um “bom dia” ou um gesto de atenção. Quando percebi isso, tomei consciência do sentido desta profissão e de como, através do meu empenho e do meu estudo, poderia produzir saúde nas pessoas.

 

“Aquilo que fazemos e produzimos, seja ao nível do ensino, da investigação ou da prática clínica, tem de ter impacto nas pessoas e na sua saúde.”

 

O que é que mais o fascina na Enfermagem?

Um enfermeiro tem nas suas mãos a decisão e o poder de dar saúde às pessoas. E é também isso que, enquanto professor, tento mostrar aos meus alunos. Dou-lhe um exemplo: quando um estudante vem discutir comigo o estudo de caso de uma pessoa, muitas vezes está mais centrado em demonstrar aquilo que sabe. E as minhas perguntas são sempre estas: “Fez isto à pessoa? Teve impacto nela?” Porque, se aquilo que me está a dizer se destina apenas a mim, então não teve efeito algum. A minha máxima continua a ser esta: aquilo que fazemos e produzimos, seja ao nível do ensino, da investigação ou da prática clínica, tem de ter impacto nas pessoas, tem de ter impacto na sua saúde. Se as pessoas não estiverem no centro, a Enfermagem perde o seu sentido. 

O que é que distingue o ensino da Enfermagem na Católica?

Na Católica, os estudantes não são apenas mais um. Cada um tem um nome e uma história, e isso faz toda a diferença na forma como se aprende. A combinação entre a teoria e a prática, logo desde o primeiro ano do curso, é também um aspeto que nos diferencia. Veja-se o meu caso: foi na prática e no contexto clínico que redirecionei a minha vida e percebi que era mesmo a Enfermagem que queria para mim. Mas o contrário também é possível. Através da prática, logo desde o primeiro ano, os estudantes podem perceber que, afinal, este não é o seu caminho.
Na Escola de Enfermagem da Católica, toda a prática clínica é acompanhada por professores, o que torna a experiência mais enriquecedora. Há uma personalização constante ao longo de todo o percurso. Por fim, não podemos esquecer que a Enfermagem na Católica tem muitos anos de história, um saber, uma filosofia e uma forma de estar muito próprias, sustentadas no conhecimento e na experiência adquiridos ao longo de décadas. O curso existe desde 1935 e já formou milhares de enfermeiros que estão hoje espalhados pelo país e pelo mundo, nos mais diversos contextos.

“Enquanto não apostarmos mais na prevenção em Portugal, será difícil que as pessoas compreendam plenamente o impacto dos enfermeiros”

A sociedade tem consciência da importância do papel de um enfermeiro?

Eu acredito num modelo muito próximo do modelo nórdico de cuidados de saúde, em que os cuidados são prestados em casa das pessoas. Ou seja, numa rede de cuidados de saúde primários muito forte, em que as pessoas só recorrem aos hospitais em último caso. O foco está na prevenção e não em resolver um problema que já se instalou. Portugal ainda não está a esse nível. O nosso sistema está muito centrado no tratamento da doença. Temos os cuidados de saúde primários institucionalizados em unidades de saúde, mas que enfrentam muitas dificuldades. Em média um enfermeiro de família tem 350 famílias atribuídas, por vezes distribuídas por uma ampla área geográfica. Esse enfermeiro não consegue sair dali. E quando é que existe um verdadeiro contacto com os enfermeiros? Quando uma pessoa é internada no hospital. Ou porque tem uma doença grave e é internada mais cedo, ou quando já está numa idade mais avançada. Muitas vezes, é só nessa altura que se começa a perceber o impacto que os enfermeiros têm. Enquanto o sistema de saúde não mudar o foco do tratamento da doença para a prevenção, é possível que as pessoas continuem a ter dificuldade em compreender o papel que os enfermeiros podem ter na sua saúde. 

A pandemia de COVID-19 mudou a perceção da sociedade sobre o papel dos enfermeiros?

Isso tornou-se muito evidente durante a pandemia de COVID-19. Não havia um medicamento que pudesse simplesmente ser prescrito para resolver o problema. As pessoas ficavam em mau estado, iam para o hospital e quem estava ao lado delas eram os enfermeiros, a assegurar os cuidados necessários para que não morressem. Foi aí que muitas pessoas perceberam verdadeiramente o impacto dos enfermeiros. Enquanto não apostarmos mais na prevenção em Portugal, será difícil que as pessoas compreendam plenamente esse impacto, porque o contacto com os enfermeiros acontece, muitas vezes, demasiado tarde.

A Católica procura formar os enfermeiros numa perspetiva mais abrangente, mostrando-lhes as diferentes dimensões e possibilidades da profissão?

Sem dúvida. E começamos logo no primeiro ano, quando os estudantes fazem o primeiro estágio, que é de observação. Essa observação não acontece apenas no hospital. Passam por hospitais, empresas com enfermeiros do trabalho, clínicas, centros de saúde, lares, Rede Nacional de Cuidados Continuados, entre outros.
Procuramos que tenham contacto com diferentes contextos para que, no final do curso, possam perceber em que área gostariam de trabalhar e saibam que não têm necessariamente de ir para um hospital. Podem trabalhar, por exemplo, numa prisão ou na área da enfermagem do trabalho. A enfermagem do trabalho é particularmente interessante porque permite trabalhar com um grupo de pessoas saudáveis e apostar na prevenção. Se formos a um centro de saúde, encontramos sobretudo dois tipos de pessoas: adultos que estão lá por causa das crianças, acompanhando-as a uma consulta, e pessoas idosas. Onde estão os restantes adultos? Estão no trabalho. É um bom exemplo que nos permite perceber o impacto que um enfermeiro pode ter na vida das pessoas e numa fase preventiva.

Que conselho pode deixar aos estudantes que começam agora a sua jornada académica na Católica, no curso de Enfermagem?

A mensagem é: venham, experimentem tudo. Sem medo. Ou melhor, com medo, porque o medo é ótimo quando estamos a falar de um curso como Enfermagem. O medo obriga-nos a pensar antes de agir. Portanto, venham com medo. Nós estamos cá para vos ajudar, essencialmente para transformar todos esses medos e incertezas em algo que será muito útil para que, no futuro, consigam dar saúde às pessoas. É para isso que estamos cá, é para isso que existimos.

 

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